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Publicado em: 27 Maio 2026

Benefícios do compromisso com a Sustentabilidade em tempos de guerra

Cláudia Pereira (Professora Coordenadora e Diretora do Mestrado em Sustentabilidade e Relato Empresarial do ISCAP) destaca as práticas de sustentabilidade que promovem uma gestão cuidada e eficiente na utilização dos recursos naturais para satisfazer as necessidades de hoje sem comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras.

O compromisso com a sustentabilidade enquanto estratégia empresarial para o desenvolvimento do negócio, bem como com a sua monitorização, sai reforçado em tempos de crise e guerra, mesmo considerando o esforço que daí resulta para as economias dos diversos países.

Parece paradoxal reforçar as práticas de sustentabilidade atendendo às dificuldades de financiamento da guerra. Atualmente essas dificuldades são acrescidas pela escassez do fornecimento de combustível fóssil dado encerramento do estreito de Ormuz, implicando uma escalada dos seus preços. Todavia, as práticas de sustentabilidade promovem uma gestão cuidada e eficiente na utilização dos recursos naturais para satisfazer as necessidades de hoje sem comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras.

Para esse efeito, importa destacar que o compromisso com a sustentabilidade não se esgota em ações ocasionais, circunscritas num determinado dia ou evento, sem carácter de continuidade, nem sem o devido enquadramento no âmbito do negócio da empresa. Antes requer a sua integração nos valores da empresa e deve constituir parte da sua estratégia. Assim, a identificação dos diversos fatores de Environmental, Social and Governance (ESG) promove a sistematização dos riscos e incertezas de modo a convertê-los em oportunidades e construir soluções que permitam a melhoria continua dos produtos e processos.

Relativamente à componente E (Environmental), esta permite desenvolver diferentes procedimentos capazes de reduzir, reutilizar e reciclar os recursos naturais com o auxílio da implementação de sistemas de gestão baseados nas normas ISO 9000 (Gestão da Qualidade), ISO 14000 (Gestão Ambiental), ISO 26000 (Responsabilidade Social), ISO 45000 (Saúde e Segurança Ocupacional) e ISO 55000 (Gestão de Ativos). Além disso, as ferramentas de contabilidade de gestão como o Balanced Scorecard e o sistema de custeio Activity Based Costing (ABC), constituem estratégias que alavancam a rendibilidade das empresas pela via da redução dos custos. Acresce que o compromisso com a sustentabilidade viabiliza também o aumento das vendas pela captação e fidelização de clientes, os quais são cada vez mais permeáveis às questões da sustentabilidade.  Está em causa uma verdadeira alteração de mentalidades, sendo o preço um fator cada vez menos preponderante nas escolhas feitas pelos consumidores. Igualmente relevante são os critérios de sustentabilidade que começam a ser tidos em conta para a definição dos contratos de dívida em condições mais vantajosas.

Quanto às práticas ESG, na sua componente S (Social), contribuem para o aumento da produtividade ao promover uma eficiente gestão de recursos humanos em condições de inclusão e igualdade a diversos níveis, como género, idades, religião e raças. Ainda no âmbito social, a criação de boas condições de trabalho e socialização proporcionam uma motivação maior e empenho mais forte por parte dos colaboradores das empresas, levando à tão desejada captação e retenção de talentos.

Por sua vez, a componente G (Governance), parente pobre da sigla ESG, é igualmente relevante para garantir que a sustentabilidade não se resume a propaganda e a manobras de distração, de desvio de atenções de práticas ilícitas como e manipulação de preços (dumping) e o greenwashing, ou menos lícitas como a gestão dos resultados financeiros, sendo essencial garantir boas práticas de monitorização e auditoria. Neste domínio, o relato da sustentabilidade e a sua uniformização assumem um papel extremamente relevante de modo a permitir a devida quantificação do compromisso das empresas com as questões da sustentabilidade, de viabilizar a análise da sua evolução, proceder ao controlo e apuramento de desvios e a comparações com as outras empresas. As normas de relato de sustentabilidade mais antigas datam de 1997, tendo sido emitidas pelo Global Reporting Initiative (GRI) e a sua adoção sempre voluntária. Dado o aumento das preocupações com as questões de sustentabilidade, mais instituições e organizações internacionais têm se empenhado no desenvolvimento de regulamentação no sentido de tornar a sua aplicação obrigatória. É o caso da União Europeia que emitiu a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) com o objetivo de coordenar a aplicação das normas de relato de sustentabilidade dentro dos Estados Membros, tendo sido criada as European Sustainability Reporting Standards (ESRS) pelo European Financial Reporting Advisory Group (EFRAG). De notar que, as normas de sustentabilidade são de aplicação obrigatória apenas para as empresas de grandes dimensões, porém estas terão de ser criteriosas na seleção dos seus fornecedores de modo que também cumpram com os requisitos ESG. Deste modo, a abrangência das normas de sustentabilidade aumenta substancialmente pela via da cadeia de valor. A nível global, o International Sustainability Standards Board (ISSB), que faz parte da International Financial Reporting Standards (IFRS) Foundation emitiu duas normas de internacionais de sustentabilidade: a IFRS S1 e a IFRS S2.

Em jeito de conclusão é de salientar que a integração dos fatores ESG e a sua monitorização através de normas de sustentabilidade constituem uma estratégia essencial para a eficiência e competitividade das empresas. De facto, a transição para práticas de sustentabilidade contínuas, com foco na transparência e na cadeia de valor, aumenta a resiliência das empresas ao transformar os riscos em oportunidades, potenciando a longevidade dos negócios em contexto de escassez de recursos naturais, por um lado devido ao estilo de vida da maior parte das sociedades contemporâneas, por outro lado devido a crises e conflitos como é o caso da crise resultante do encerramento do estreito de Ormuz.

+info: https://greensavers.sapo.pt/beneficios-do-compromisso-com-a-sustentabilidade-em-tempos-de-guerra/

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