As competências técnicas continuam a ser a base da profissão, mas já não chegam para formar um contabilista de excelência. Manuel Moreira da Silva, Diretor da FCEP, defende um perfil que combine conhecimentos de contabilidade, fiscalidade e gestão com competências digitais, capacidade de liderança e análise crítica. Para o responsável, a inteligência artificial deve ser encarada como “um meio, não como um fim”, libertando professores e estudantes de tarefas repetitivas e permitindo uma maior aposta na interpretação da informação e na criação de valor.
Contabilidade & Empresas - Quais são hoje as competências mais valorizadas pelas empresas quando recrutam profissionais de contabilidade?
Manuel Moreira da Silva - Mais do que uma hierarquia de competência, atualmente, deveremos falar de um perfil de competências integradas e complementares. Na base estão certamente as competências técnicas, dado que sem os conhecimentos técnico-científicos da área da contabilidade, auditoria, fiscalidade e gestão nunca poderemos ter um profissional de excelência. A grande questão é que essas competências técnicas, por si só, não são suficientes para distinguir um bom profissional. As organizações precisam de profissionais que combinem estas competências com competências digitais e de liderança. Cada vez mais, a aplicação das competências técnicas em ambientes complexos e altamente evolutivos obriga a um entendimento profundo de tecnologias, algoritmos e a desenvolver capacidades processamento e análise de dados.
C&E – Qual deve ser o posicionamento do contabilista?
MMS - Para que o uso da informação contabilística seja efetivo e útil às organizações e à sociedade, o contabilista tem de entender a estrutura organizacional em que se insere e usar as suas múltiplas capacidades, entre as quais destaco as de liderança, para mobilizar a transformação da informação em decisões e das decisões em criação de valor. Diria que a profissão se torna, a cada dia que passa, mais exigente. Fica claro também que não existe um processo de substituição de competências, mas antes uma soma de novas competências e a sua integração a nível individual, uma vez que esta dimensão pessoal se torna cada vez mais relevante e diferenciadora.
C&E - De que forma a inteligência artificial está a alterar os conteúdos dos cursos de Contabilidade?
MMS - A Inteligência Artificial deve ser entendida como um instrumento ao serviço dos profissionais. Podemos perceber o seu uso e integração como uma evolução tecnológica, tal como aconteceu com a máquina de calcular, o computador, os diferentes softwares, a internet, etc., e que já transformou o setor profundamente. A integração da IA nos conteúdos dos cursos de Contabilidade está, na/o FCEP/ISCAP, a ser feita enquanto instrumento pedagógico, como uma verdadeira ferramenta de trabalho para professores e alunos. Procuramos que estudantes e docentes entendam e apliquem a IA como um meio, não como um fim. Se for usada de forma ética, íntegra e profissional, todos ganham, nomeadamente a sociedade que acolhe os nossos diplomados.
C&E – E quanto aos estudantes?
MMS - Os estudantes devem compreender profundamente a lógica dos lançamentos contabilísticos, mas não faz sentido dedicar uma parte significativa do tempo letivo à repetição manual de tarefas que, na prática profissional, serão cada vez mais automatizadas. O professor pode agora, por isso, utilizar o tempo de aulas para desenvolver nos alunos competências mais relevantes e úteis, como a análise crítica dos lançamentos contabilísticos feitos automaticamente.
C&E - Que peso têm atualmente as competências digitais e a análise de dados na formação dos futuros contabilistas?
MMS - Possuem reconhecidamente um peso crescente em termos de importância. Mas insisto na ideia de que nada disso pode ser aplicado no vazio. Se um profissional quer analisar dados da área económico-financeira, terá de saber como foram obtidos, qual é o significado desses dados, quais são as potenciais fontes de viés, etc. Ora, isso exige um conhecimento específico da área da Contabilidade que sustenta a capacidade crítica para interpretar os resultados produzidos pela tecnologia. Se falarmos da análise de dados em abstrato, então, analisar dados relativos ao desempenho financeiro das empresas ou dados relativos à saúde da população, seriam problemas idênticos, mas que exigirão sempre profissionais com competências técnicas específicas para a sua correta interpretação.
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