Quando pedimos a seis mulheres portuguesas com percursos de reconhecimento público que nos contassem as suas histórias profissionais, não esperávamos que a resposta mais reveladora fosse aquela que nenhuma estatística consegue capturar: o sucesso, para elas, não cabe numa promoção nem num salário. Cabe na coerência entre o que se faz e o que se é.
O estudo Vozes de Sucesso: Narrativas de Carreiras no Feminino partiu de uma premissa simples: dar voz às próprias mulheres. Seis percursos distintos, da investigação científica ao desporto adaptado, da gastronomia às forças armadas, do ensino superior ao setor social. Seis histórias diferentes que, quando colocadas lado a lado, revelam uma consistência surpreendente.
Para lá do sucesso tradicional
O primeiro dado que ressalta da análise é precisamente este: o sucesso profissional, tal como estas mulheres o vivem e narram, é predominantemente subjetivo. Os indicadores externos - reconhecimento, progressão, estabilidade financeira - surgem nas narrativas, mas não são eles que assumem centralidade. O que estrutura verdadeiramente a experiência de sucesso é outra coisa: o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, a coerência com os próprios valores, a qualidade das relações e o impacto positivo gerado no contexto em que se trabalha.
Esta perspetiva desafia os modelos tradicionais de carreira ainda muito centrados no desempenho mensurável e nos resultados externamente observáveis e interpela diretamente as organizações: estamos a criar condições para que as pessoas construam carreiras com significado, ou apenas a medir outputs?
Três competências que atravessam todos os percursos
Para além da forma como o sucesso é definido, o estudo identifica três competências que surgem de forma transversal em todos os percursos analisados. A autodeterminação, a capacidade de tomar decisões alinhadas com objetivos e valores próprios, assumindo um papel ativo na construção do percurso. A adaptabilidade, a forma como estas mulheres enfrentaram contextos exigentes, superaram constrangimentos e se reinventaram. E a aprendizagem contínua, não como obrigação, mas como eixo identitário, uma procura constante de desenvolvimento que sustenta a evolução ao longo do tempo.
Três competências que, curiosamente, figuram no topo de qualquer lista de skills mais valorizadas pelas organizações hoje. Mas que aqui emergem não como requisitos impostos, mas como traços profundamente internalizados.
Ninguém chega sozinho
Um outro elemento que percorre todas as narrativas é a importância das redes de apoio. Mentores, colegas, familiares, referências, f iguras que não apenas criaram oportunidades, mas reforçaram a confiança e a legitimidade num contexto que, como o estudo também evidencia, nem sempre as reconhece de forma equitativa. E, porque o estudo não romantiza os percursos: discriminação, desigualdade de oportunidades, necessidade de afirmação e legitimação constante das suas competências, estas experiências estão presentes nas narrativas. E tornam o sucesso alcançado ainda mais significativo, mas também mais exigente do que deveria ser.
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